Divã

O Desabafo De Um Recém Divorciado Revoltado - Parte 1

Enquanto eu definho a espera da resposta do currículo que enviei pela internet a uma empresa, minha ex-mulher, com os músculos desenvolvidos e o sexapple a flor da pele, ocupou o meu espaço no mercado de trabalho.

Não ignoro o fato de que um mundo de possibilidades se descortinou para ela, no entanto, ela não percebe que está fora do seu lugar de origem. Fascinada pelo poder, ela andava ultimamente estressada, a ponto de tirar a minha vida do eixo e me deixar sem o café da manhã, sem sexo e sem roupa lavada. Por fim me propôs vivermos num ambiente de igualdade... De repente ouvi gritos que vinham do banheiro e corria para ver o que era...

Era ela, outra vez, apavorada, com os pneuzinhos na cintura, com poucas estrias ao redor dos mamilos, com celulite quase imperceptível no bumbum e não muitos pés de galinha ao redor dos olhos. É muita frivolidade e futilidade para o meu gosto.

Enquanto animais silvestres estão em extinção, ela se preocupa com panturrilhas e varizes. Só o que importa para ela é o celular, o batom, sapatos e bolsas... Ela sempre reclamou da minha maneira sem rodeios de amar, mas ela jamais entendeu que eu só consigo provar o meu amor, quando estou com ela na cama. Eu gostava de me completar nela, de sentir o seu cheiro, o seu perfume e de sentir seu coração batendo forte contra o meu.

Enquanto eu deslizava os dedos por suas coxas nuas como se dedilhasse as cordas de um Takamini, eu me entregava por inteiro e lhe declarava o meu amor, muito mais romântico e original do que simplesmente dizer “eu te amo”. Eu tinha tanto para lhe dar, mas decifrar os desejos daquela mulher era tarefa muito difícil para mim.

Só mesmo um gênio para conseguir entender a alma e a cabeça de uma mulher... Enquanto ela ficava horas à frente do espelho, eu ficava horas esperando por ela no final da fila. Depois que fazia tudo o que queria é que olhava para mim, altas horas da madrugada, como se dissesse: “Esse restinho de tempo que me sobrou é seu!” A essa altura qualquer deslize meu mancharia a minha reputação, e o pior é que o medo de fazer feio me levava a fazer feio...

Ela reclamava de mim, dizia que eu era impaciente e frio, mas eu estava sempre lá esperando por ela e quando ia fazer-lhe carinho, ela dizia que meus carinhos a irritavam...

Por que ela insistia em pedir minha opinião se nenhuma delas tinha importância? Um dia ela pôr diante de mim dois pares de sapatos, um vermelho e outro preto e me perguntou: “Com qual dos dois devo sair hoje à noite, meu bem?” Eu lhe respondi: “Vá com o preto!” Então ela pegou o vermelho e saiu sorridente... Com a mesma facilidade que ela ri, ela chora.

Chora com a mocinha da novela, chora até com o shrek da Fiona e suspira quando vê os bíceps alterados do Stalone e a covinha profunda no queixo de Jorge Cloney. Agora, se eu olhasse para a Carolina Dickmam, travesseiros voavam e jarros eram atirados contra os espelhos! Ainda tenho alguns hematomas no corpo, da última vez que apreciei... Deixa para lá...

O pior é quando ela resolvia me comparar a alguns deles. Isso era uma covardia! Não sabe ela que aquilo ali é um mundo de fantasias? Que aqueles homens estão cheios de maquiagem e que nenhum deles suportaria ficar com a mesma mulher por mais de um dia? Artista de verdade sou eu... Dizem que TPM é Tensão Pré-Menstrual, mas eu acho que é tensão para matar ou tensão para morrer, porque quando ela está com TPM ninguém suporta, mas eu pagava o preço e o pato.

Ela virava um monstro e a toa se aborrecia comigo. Nesses dias ela me matava e eu morria, mas logo em seguida ela queria saber o que eu estava pensando. Graças a Deus que no meu pensamento penetrar ela não podia... Ela já me deixou em jejum por quase um ano só porque eu disse que ela estava mentindo. Eu já estava roendo o sabugo do dedão do pé e me excitando com o velho Takamini que eu tinha no canto da sala! Maldita dor de cabeça que nunca ia embora, e o pior é que eu acreditava... Mas isso agora é passado, porque ela se desencavernou e nós nos separamos!

Algumas mulheres hoje são Comandantes de aeronaves, Sargentos, Caminhoneiras, Estivadoras, Ascensoristas, Garis... Minha ex-mulher é Empresária. Imagina! Tentou me controlar a vida toda! Dizem que elas são mais econômicas, que lideram melhor, que são mais controladas no tato, no trânsito, no trato, que não são mais as mulheres do lar e que não dependem mais de nós. Sinto saudade do tempo em que a minha precisava de alguns trocados para tomar um ônibus ou um sorvete. Era tão bom meter a mão no bolso, olhando por cima do ombro e ficar esperando pelo troco.

Dava-me uma sensação de poder! Sim, governar mulher é puro poder, principalmente quando ela é gostosa, e a minha era... Hoje elas pilotam aviões e levam mais de 500 passageiros para o outro lado do mundo. Elas se assentam na cadeira da Presidência da República, vestem Channel e só compram perfume francês. Não usam bijuteria, só jóias, não andam com dinheiro e quando abrem suas carteiras Luis Vitton é para sacarem seus cartões de crédito sem limite. Grifes não é uma opção, exclusividade. Seus carros têm estepe, triângulo, macaco, elas fazem as revisões periódicas e não abrem mão do seguro.

O tanque de combustível nunca está na reserva e se o pneu furar sempre há um otário como eu pronto para trocá-lo, porque nessas horas, elas sabem fazer carinhas indefesas que nos deixam tontos... Elas criaram asas e voaram para longe de nós. Nossos braços se encurtaram, já não podemos mais alcançá-las. E isso é só o começo, porque elas gostaram... Minha ex-mulher não precisa de afago no ego, porque seu ego já está bastante exaltado.

Ela precisa sim, tomar o primeiro trem na próxima estação e retornar urgente para casa. Eu continuo aqui, esperando por ela, nada mudou. Estou disposto a esquecer tudo e recomeçar de onde paramos...